Sobre um acidente
Julho 3, 2009
Era uma noite fria no coração de São Paulo, a cidade que tanto amo, que é testemunha das estranhezas da minha vida (embora lá eu não tenha nascido). E de repente, aquele vento sul que aperta e oprime os corações bateu. E como se desse tipo de sensação pudéssemos fugir, eu corria. Corria arrastando a amiga de anos comigo, pra matar um pouco da solidão. Corria com um sorriso bobo, como se ir contra o vento fosse provar que sou mais forte, que tenho forças pra viver e escolho essa vida, de bom grado. Corria mais, pra que o vento sul que me oprime limpe também as lágrimas do meu rosto e torne meus pensamentos fugidios, meus sentimentos voláteis. Porque ficar com eles é insuportável. É pesado.
Então, um encontro, um feliz acidente. Não uma reviravolta; a esse ponto minha história não precisa de mudanças drásticas, de clímax. Ela precisa das pequenezas, da simplicidade. Não de um descompasso nessa batida, mas de percussão, ou de quem cante junto. E foi aí que aconteceu um sorriso. Se engana quem pensa que os sorrisos não acontecem, ou que não podem ser tratados como acontecimentos (muitas vezes, mudam mais coisas do que o clímax, veja só).
Foi isso que me aconteceu. Um sorriso, sorriso este de um desconhecido. Mas o que importa é que alguém me sorriu, dividiu sua parcela de felicidade despercebida e corriqueira comigo. Miudezas como estas, eu já disse, acontecem. E são maiores do que pensamos. Na verdade, elas são o verdadeiro clímax, são capazes de dar força contra o vento sul. Estão presentes todos os dias e deixamos que aconteçam sem serem notadas. Pois é, esse diminuto momento tem nome. E o nome deste momento, deste sorriso, é esperança.